Nem metade da rodovia concebida na ditadura militar para ligar os 885 km entre Manaus (AM) e Porto Velho (RO) saiu do papel. E o que saiu está em péssimas condições, oferecendo todo tipo de perigo aos motoristas. Apesar do custo bilionário, é o único projeto desse porte “que jamais teve estudo de viabilidade econômica”, observa o norte-americano Philip Fearnside, biólogo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Abandonado por décadas devido a sua inviabilidade, ele recebeu apoio de Jair Bolsonaro desde o início do mandato, e agora o Ibama emitiu licença prévia para a pavimentação dos 400 km centrais do trajeto, que atravessam ou margeiam terras indígenas e áreas de conservação. Na conversa com Renata Lo Prete, Fearnside alerta para o efeito “catastrófico” que a obra terá sobre um dos últimos grandes maciços verdes da floresta. A simples perspectiva de sua realização fez disparar a grilagem de terras públicas e o desmatamento no entorno, além de estimular o surgimento de estradas secundárias ilegais, em processo conhecido como “espinha de peixe”. O pesquisador, integrante do time que recebeu o Nobel da Paz por estudos feitos com o Painel sobre Mudanças Climáticas da ONU, lembra ainda que está “tudo conectado”, ou seja, as consequências são para o Brasil inteiro e para o mundo.
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